
(Foto: Reprodução)
(*) Lúcia Helena Vieira
Nunca se falou tanto em transparência. Ainda assim, poucas
vezes as instituições pareceram tão distantes da compreensão pública.
Nos últimos anos, a divulgação de informações passou a
ocupar espaço central na comunicação institucional. Relatórios, dados públicos,
notas oficiais e manifestações constantes criaram a sensação de que apresentar
números e valores é suficiente para fortalecer confiança e credibilidade.
Nem sempre é.
Em muitos casos, a simples exposição de informações passou a
ser tratada como sinônimo de comunicação eficiente. Divulgam-se documentos
extensos, dados, decisões administrativas e justificativas técnicas sem que
exista, necessariamente, clareza sobre o que aquilo significa para a sociedade.
O resultado é um paradoxo cada vez mais visível:
instituições altamente expostas e, ao mesmo tempo, crescentemente
incompreendidas.
Informação sem contexto raramente produz entendimento.
Em ambientes marcados por excesso de conteúdo, disputas de
narrativas e circulação acelerada de versões, a transparência deixou de ser
apenas um exercício formal de divulgação. Tornou-se também a capacidade de
oferecer interpretação, clareza e sentido público às informações.
Isso não significa controlar versões nem transformar
comunicação institucional em peça de convencimento. Significa reconhecer que
dados isolados, linguagem excessivamente técnica e comunicação defensiva não
são bons instrumentos para aproximar as instituições das pessoas. Em alguns
casos, o resultado é mais distanciamento, ruído e desconfiança.
Instituições maduras compreendem que transparência não é
exposição pura e simples. É, além de dever, responsabilidade comunicacional.
Porque a responsabilidade pelo entendimento da mensagem é sempre de quem
comunica.
Responsabilidade comunicacional exige contexto.
Hoje, mais do que falta de informação, a sociedade enfrenta
excesso, fragmentação e dificuldade de compreensão. Nesse ambiente, não basta
divulgar fatos para comunicar. É preciso ter capacidade de organizar
informações de forma inteligível, contextualizada e compreensível para todas as
pessoas.
Transparência continua sendo indispensável. Mas
transparência sem clareza está longe de produzir confiança.
(*) Jornalista, Consultora de Comunicação e Vice-presidente da Associação Catarinense de Imprensa (ACI)